Sabe aquele susto que você leva quando acorda no meio da noite, num quarto escuro, e demora cinco segundos pra lembrar se está na sua casa ou na casa da sua avó? Pois é, agora imagina acordar em uma cama de metal, cheio de tubos espetados no corpo, com um robô te fazendo perguntas e sem ter a menor ideia de como você se chama. Esse é o ponto de partida de Devoradores de Estrelas (ou Project Hail Mary, pra quem acompanhou o hype do livro do Andy Weir), e eu já te adianto: se segura na poltrona porque a viagem é doida.
Eu fui pro cinema esperando uma vibe meio Perdido em Marte, mas o que o diretor Phil Lord entregou foi algo com uma alma muito mais profunda e um senso de urgência que faz as quase três horas de filme passarem voando.
Ryan Gosling interpreta Ryland Grace, um professor de ciências que, por motivos que ele vai lembrando aos poucos através de flashbacks muito bem montados, acaba sendo a última esperança da humanidade. O Sol está morrendo — ou melhor, sendo 'comido' por uma substância misteriosa — e a Terra está com os dias contados. O cara é genial, mas ele é gente como a gente; ele sente medo, ele faz piada ruim quando está nervoso e ele erra. Gosling consegue entregar uma vulnerabilidade que me fez esquecer completamente do 'Ken' ou do motorista de 'Drive'.
O filme não tem medo de ser inteligente e isso é o que eu mais curto em ficções científicas que respeitam o espectador.
Tem muita ciência aqui, bicho. Muita mesmo. É cálculo de trajetória, biologia molecular, física aplicada... mas tudo é explicado de um jeito que você se sente um gênio junto com o protagonista. O roteiro não te trata como burro, ele te convida a resolver o quebra-cabeça. E quando a gente acha que o filme vai virar um documentário do Discovery Channel sobre o espaço, a trama vira a chave e apresenta o que eu considero a melhor amizade do cinema dos últimos dez anos. Não vou dar spoiler, mas a química do Gosling com 'quem' aparece no meio do caminho é de chorar de rir e de se emocionar.
Aliás, antes de você correr pro cinema com o balde de pipoca, dá uma passada no RavyFlow pra conferir a classificação indicativa e os detalhes de conteúdo sensível, como violência ou se tem alguma cena que possa incomodar os mais novos; é sempre bom saber o que esperar antes das luzes se apagarem.
Falar de Phil Lord sem falar de visual é impossível.
A estética da nave Hail Mary é claustrofóbica na medida certa, contrastando com a vastidão absurda e assustadora do espaço profundo. A fotografia usa cores que mudam conforme a memória do Grace vai voltando, o que ajuda a gente a se localizar no tempo sem precisar de letreiros chatos na tela. E o som? Meu amigo, o design de som desse filme precisa ganhar todos os prêmios possíveis. O silêncio do vácuo é usado como uma ferramenta de tensão que me deixou com as mãos suando em várias cenas.
Sandra Hüller também aparece destruindo como Eva Stratt, a mulher que manda no projeto inteiro na Terra.
Ela é aquela personagem 'badass' que não precisa gritar pra mostrar quem manda, e os embates dela com o resto do elenco nos flashbacks dão o peso político e social que a história precisava. Você entende o sacrifício que a humanidade teve que fazer pra colocar aquele foguete no ar. Não é só sobre um homem no espaço; é sobre o que a gente está disposto a perder pra não perder tudo.
O filme tem 157 minutos, o que pode parecer um exagero no papel, mas a montagem é tão dinâmica que eu nem olhei pro celular.
A cada problema resolvido, surgem três novos, e a forma como o Ryland usa o método científico — tentativa, erro e muita improvisação — é empolgante. É um filme que celebra a curiosidade humana. Em um mundo onde parece que a gente está desaprendendo a conversar, ver uma história sobre cooperação e sobre como a ciência pode unir até os seres mais improváveis é um alento pro coração.
James Ortiz e Lionel Boyce também entregam atuações sólidas, mesmo com menos tempo de tela.
E tem a Milana Vayntrub, que traz um alívio cômico pontual que funciona super bem pra quebrar o gelo nos momentos de quase morte. O elenco de apoio é muito bem escalado, ninguém parece estar ali só pra preencher cota. Cada rosto nos flashbacks ajuda a construir o peso da solidão que o Grace sente lá em cima.
Se você gosta de Interestelar mas achou meio parado, ou se amou Perdido em Marte mas queria algo mais 'fantástico', esse filme é pra você.
Eu saí do cinema com aquela sensação de que o cinema de grande orçamento ainda tem salvação quando cai nas mãos de quem realmente ama o material original. Phil Lord provou que sabe equilibrar humor, drama e efeitos visuais de ponta sem perder a mão. É um filme que te faz querer olhar pras estrelas e, ao mesmo tempo, querer abraçar seus amigos aqui embaixo.
No fim das contas, Devoradores de Estrelas é um lembrete de que ninguém faz nada sozinho, nem mesmo salvar o sistema solar.
A nota 8.2 não é por acaso; o filme só não ganha um 10 porque algumas soluções científicas no terceiro ato parecem um pouco 'convenientes' demais pra fechar o tempo de tela, mas nada que estrague a experiência. É cinema de entretenimento puro, com cérebro e coração batendo no mesmo ritmo. Se você tiver a chance, veja em IMAX. O som daquelas turbinas e o visual da radiação estelar merecem a maior tela que você encontrar.
A gente se vê na próxima sessão, valeu!